quarta-feira, 27 de maio de 2009

Tomada de posse

Ex. mos Senhores
Presidentes da CM
Representante do Senhor Presidente da AM
Presidentes de JF
Representantes dos EE
Professores, Funcionários
Meus amigos…

1 – Quero começar por alguns agradecimentos:
Ao Conselho Geral, a confiança depositada em mim e no projecto que apresentei. Espero corresponder com o máximo empenhamento, sentido de responsabilidade e respeito pela comunidade educativa que representa.
A todos os que me incentivaram a avançar, impulsionaram e têm acarinhado, antes e depois do procedimento concursal que determinou a minha eleição. Espero também corresponder com a maior dedicação e compreensão, de forma a poderem sentir sempre a minha presença e incentivo, em todos os momentos e, de modo especial, nos mais difíceis.
Aos colegas que terminam o seu mandato, o agradecimento e o louvor, em nome da comunidade educativa que passo a representar, pela dedicação e exemplar sentido de responsabilidade com que, ao longo destes sete anos, abriram, no meio de muitas dificuldades e incertezas, os novos horizontes, hoje consensualmente assumidos, de um agrupamento de escolas a que nos orgulhamos de pertencer e que assumimos como património comum.
Finalmente, agradecer às colegas que se disponibilizaram a integrar e enriquecer com a sua experiência, saber e dedicação esta equipa, que muito me honra ter sido possível concretizar: as professoras Fernanda Santana, como subdirectora e as professoras Maria José Branco e Amélia Vitorino e a educadora Isabel Gonçalves, como adjuntas.

2 – Em segundo lugar, quero formular alguns pedidos, muito sinceros:
Desde logo, a necessária tolerância para com a equipa que vai assumir a direcção do agrupamento, sobretudo neste primeiro ano de mandato, em que teremos que nos consolidar como equipa e familiarizar com dossiers e com uma legislação que vem mudando a ritmo acelerado, o que dificultará a nossa capacidade de decidir e de coordenar. Com efeito, apesar da experiência de todos nós, as alterações rápidas ocorridas no domínio da educação, nos últimos anos, impõem um conhecimento aprofundado da legislação e uma articulação de procedimentos, o que se obtém com tempo e trabalho.
A todos os profissionais do agrupamento, docentes e não docentes, peço o maior empenhamento e sentido de responsabilidade, a maior serenidade e um esforço continuado de entreajuda, colocando sempre todos os recursos e capacidades que possuímos ao serviço do interesse superior aos nossos interesses pessoais: a educação das crianças e adolescentes que servimos.
Sabemos existirem conflitos e tensões inúteis, resultantes, por vezes, da tendência a sobrepor o interesse pessoal ao colectivo, o interesse individual ao de grupo, situações que dificultam a comunicação, colocam obstáculos artificiais à implementação de projectos e à criação de um imprescindível clima de motivação, de diálogo construtivo, perturbando-se assim as necessárias condições de trabalho. Peço-vos, portanto, o discernimento necessário para distinguir o essencial do acessório, o prioritário do secundário, o colectivo do individual.
Peço também às famílias, aos encarregados de educação, um empenhamento sério e continuado no mesmo objectivo comum que nos move, enquanto profissionais, embora numa perspectiva mais pessoal, a vossa – a educação dos vossos filhos. Creiam que construímos juntos o mais precioso dos vossos bens: o futuro dos vossos filhos. Não falo da conta bancária ou de outro património material, que sobem e descem, que se perdem e recuperam. Falo de um bem mais essencial: a formação da pessoa, o desenvolvimento da sua personalidade, a sua integração e realização plena, numa sociedade cada vez mais exigente e competitiva.
Neste processo, todos os professores deverão ser olhados com o maior respeito e consideração pessoal e profissional. Mesmo falhando, eles não transmitem só conhecimentos e valores, competências e capacidades. Estão também atentos a muitos outros aspectos: são, muitas vezes, os primeiros a perceber que os vossos filhos dormem ou comem mal, os primeiros a alertar quando não vêem ou não ouvem bem, os primeiros a dizer-vos que, por um qualquer motivo ou circunstância, os vossos filhos não estão bem. E fazem-no simplesmente porque se preocupam com as pessoas que têm sentadas à sua frente; fazem-no porque querem ajudar a ultrapassar as dificuldades e encontrar as soluções que permitam aos vossos filhos crescer harmoniosamente.
É pois tempo de, em família, no café, na conversa de rua, se dignificar a imagem e o papel dos profissionais da educação, se olhe sobretudo para os aspectos positivos e tolerem eventuais irregularidades que, por vezes, ocorram, procurando, numa atitude fundamentalmente construtiva, ajudar a encontrar soluções.
Não posso deixar de pedir directamente aos professores que, por todas as formas possíveis e em todos os momentos e lugares, se preocupem com a dignificação da sua função social e da imagem pública que transmitem para fora da escola. Se o ME e a comunicação social podem determinar a natureza e a estrutura de uma carreira profissional, que vimos sentindo desrespeitada e desconsiderada, muito do prestígio, da dignidade e do respeito que reclamamos depende da intervenção de cada um de nós.
Não me levam a mal que peça ainda aos que não estiveram comigo ou não se reconhecem no projecto que apresentei que, independentemente de posições diferentes, saibamos dar as mãos em prol do essencial que nos une. Desejo que este processo não deixe sequelas ou gere divisões estéreis. De facto, na viagem que empreendemos, há lugar seguro para todos e não têm sentido as palavras «vencido» ou «vencedor». Não faltarão os projectos a dinamizar que proporcionem experiências profissionais enriquecedoras.
Espero não ter pedido demais.

3 – Quero agora falar daquilo a que nos propomos, dos caminhos a seguir.
Com 27 anos de serviço, tenho ainda muita honra e muito gosto em assumir a minha profissão. Tenho consciência das funções e desafios a que me candidatei. Mas não escondo nesta hora que, dentre de mim, está um professor. Professor de História. E é nessa condição que me sinto a iniciar uma viagem comparável, talvez, às dos nossos navegadores do século XV. Avancei, tacteando, até ao Cabo Bojador, numa navegação à vista, sem maldizer, vendo e ouvindo, estudando os perigos e as possibilidades. Navegando à vista, construí uma equipa que penso ser sólida e humilde, inteligente e experiente, dedicada e disponível, cooperante e dinâmica. Porque só assim enfrentaremos, com sucesso, os problemas do mar alto, só assim passaremos o cabo das tormentas.
Com efeito, serão muitas as dificuldades da viagem. Umas, previsíveis. Outras, impossíveis de prever. À partida, centramos as nossas atenções em problemas de que todos falamos diariamente:
• O elevado número de alunos por turma;
• O crescente número de alunos com problemas de aprendizagem, desmotivação e desinteresse pelas actividades escolares;
• A falta de condições de trabalho em algumas escolas, nomeadamente na escola-sede;
• O desprestígio e a desvalorização social da educação e da escola pública e, naturalmente, dos professores;
• O crescente clima de distanciamento e desconfiança de um número significativo de famílias relativamente à escola e à vida escolar dos seus educandos, as quais não assumem a escola como seu interesse e a educação dos seus filhos como uma prioridade;
• A inexistência de um quadro de valores culturais e educativos, consensualmente construído e credível, em torno do qual se definam as grandes prioridades da acção educativa;
• O número cada vez maior de situações de indisciplina e desrespeito pelas normas básicas da convivência cívica numa sociedade democrática, em que, à consciência dos direitos não corresponde, de forma simétrica, a consciência dos deveres perante os outros;
• O clima social de pessimismo, falta de esperança no futuro, em função de uma maior precariedade e instabilidade, vividas no seio das famílias, com óbvios reflexos no comportamento e motivação dos alunos;
• Uma comunicação social «morangos com açúcar» que contraria, pela raiz, os princípios e ideais que estiveram subjacentes à criação de uma escola pública democrática, que massifica a mediocridade e a vulgaridade, trava o desenvolvimento da personalidade e do pensamento crítico, desvaloriza o sentido do esforço continuado, do trabalho, da iniciativa criativa e da noção do médio e do longo prazo;
• Um sistema de avaliação dos docentes que promove o individualismo e a competição em prejuízo da cooperação, que incentiva a prossecução de metas abstractas, sem cuidar das realidades concretas e diversas, entre escolas, entre turmas, entre pessoas.
Enfim, um sem número de dificuldades e obstáculos que atemorizam e desafiam, exigindo a todos nós uma nova atitude.
Com efeito, a defesa da educação pública, o seu sucesso, e a dignificação da profissão docente, não podem fazer-se a olhar para trás, para a escola em que fomos alunos. A escola autoritária, transmissora de conhecimentos e valores simples e universalmente aceites e impostos, já não existe.
Este será então o tempo de refazer, de recomeçar. Proponho, como ideia-chave da proposta que apresento, o lema «uma escola que pensa». Porque, de facto, acredito que a escola/agrupamento que queremos, terá que ser «negociada», pensada por todos nós, num processo de intervenção crítica construtivo. Só uma escola que pense, saberá olhar os problemas reais e equacionar caminhos adequados, debatidos e consensualmente assumidos.
Uma escola que pense não só será mais capaz de olhar e compreender a complexidade e as diferenças com que se confronta, como terá maiores possibilidades de estabelecer vias de comunicação e resolução de conflitos; não só estará mais habilitada a promover a excelência do seu desempenho global, mobilizando-se para a inovação, para a experimentação de metodologias educativas compatíveis com a diversidade de situações, como estará ainda mais motivada para a adesão e implementação de projectos mobilizadores.
Neste processo, nesta viagem, não basta um director. E não bastam os professores, muito menos a trabalhar de forma isolada, em torno de interesses pessoais. Todos somos necessários, os que estamos e os que poderão vir. A uma sociedade cada vez mais complexa, só poderá corresponder um processo educativo complexo e devidamente coordenado, envolvendo, ao lado das famílias, um amplo leque de outros profissionais, especializados, funcionando em parceria: psicólogos, docentes de ensino especial, nas suas múltiplas valências, assistentes sociais, dinamizadores culturais. Há, do meu ponto de vista, e a este propósito, dois equívocos perversos: o que pressupõe que os professores podem desempenhar todos aqueles papéis e o que supõe que a educação e o ensino são competência exclusiva dos professores. É preciso ultrapassar este clima de indefinição, se queremos construir um agrupamento de referência, prestigiado perante a comunidade, de que possam orgulhar-se todos os que o servem e os que são servidos por ele.
Se a escola já não pode reproduzir um modelo do passado, também não serei um director “à antiga”. Por isso, serei o primeiro a empenhar-me na criação de um clima de união e serenidade, de confiança e cooperação, em que me caberá sobretudo ouvir, dinamizar, coordenar, motivar. No entanto, no quadro das competências que assumo, e porque sei que a qualidade que desejo não resulta apenas da simpatia e da boa vontade, espero ser também o primeiro a dar o exemplo da exigência, do rigor, da disciplina e do sentido de responsabilidade, que se esperam de todos e de cada um de nós.
Esta não será uma viagem fácil! Mas é possível e encontraremos, certamente, os portos seguros que nos darão o alento necessário para prosseguir. Conselhos de docentes, departamentos curriculares, Conselho Pedagógico, directores de turma, Associações de pais e encarregados de educação, Câmara Municipal, Juntas de Freguesia, instituições locais aqui representadas, todos seremos chamados a encontrar soluções e estratégias para os problemas diagnosticados. Todos seremos chamados a pensar e a viver esta viagem.
Esperando contribuir para respeitar e prestigiar todos os órgãos de gestão, a começar pela que me cabe desempenhar, dirijo-me hoje, de forma mais directa, aos membros do Conselho Geral, a quem compete decidir o essencial: o projecto educativo e o projecto curricular do agrupamento, o regulamento interno, os planos de actividades e os orçamentos. Espero ainda poder desenvolver convosco algumas linhas estratégicas apresentadas no projecto de intervenção com que me candidatei, das quais destaco: uma gestão participada, a melhoria da qualidade do ensino, o estabelecimento de um sistema de avaliação interna, a criação de uma Sala de estudo e de uma Oficina da escrita e da leitura. Espero também que nos ajudem a reflectir e a decidir sobre questões tão importantes como a disciplina/indisciplina, os caminhos possíveis da flexibilização curricular e da construção de uma escola inclusivista. Proponho igualmente que se reflicta e se decida sobre o grau de exigência a adoptar, se deveremos trabalhar para as estatísticas, para a aparência ou para o rigor e a exigência; se queremos construir um agrupamento que valorize o trabalho e o desenvolvimento de competências e capacidades ou que privilegie a ocupação dos tempos livres das crianças e jovens.
Peço, relativamente a todas estes temas que, mais do que uma mera aprovação ou reprovação de documentos estruturantes, se assuma uma efectiva co-responsabilização na definição das linhas de rumo e na definição de uma cultura própria com que nos identifiquemos.
Os novos territórios que queremos descobrir, a sociedade mais justa, fraterna e tolerante, competente e democrática que queremos construir, reclamam a mobilização e cooperação de todos os esforços e vontades, pois só assim ultrapassaremos os cabos das tormentas e me será possível, em cada momento, sentir e dizer o mesmo que o frágil marinheiro face ao mostrengo: «Aqui ao leme sou mais do que eu…».




Entroncamento, Escola Dr. Ruy d’Andrade, 26 de Maio de 2009



Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer-grandeza são Seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.


FERNANDO PESSOA

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